Um Texto real

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Isis acordou um pouco grogue, levantou-se vagarosamente para cozinha. Comeu qualquer coisa e foi para o escritório tinha que trabalhar.
Ela conhecia o apartamento como a palma da sua mão, vivia lá há 14 anos, desde que entrou na faculdade, aos 18. Às vezes ia visitar seus pais, preferia morar só, sentia-se mais independente.
O relógio marcava oito horas quando resolveu ir ao café perto de sua casa, sempre que ia para lá sua imaginação fluía e era disso que estava precisando. A visão do mar atrás do grande vidro cristalino a tranqüilizava. O café ficava a cinco metros de um penhasco, no qual havia lindas flores.
Passou pelos cômodos da sala e do banheiro, pegou seu, sobretudo e saiu.
Apertou o botão para chamar o elevador, ele sempre demorava, seu andar era o ultimo. A velha senhora dos 76 saias de sua casa em direção a ele, de certo iria à casa de Dona Flora, era de costume ir visitá-la às terças-feiras de manhã.

─ Bom dia, Sra. Murfin - exclamou Isis bondosamente.
─ Bom dia. – A senhora respondeu um pouco assustada, surpresa pelo cumprimento. Estranha essa reação, eu sempre faço a mesma coisa, um cumprimento educado, e a Sra. Murfin sempre diz algo amável como: “Bom dia, meu anjo, o que você quer de lanchinho hoje? Vou lhe visitar.” Parece até que ela não me conhece. A moça estava triste por pensar em ser esquecida pela Senhora Dos 76, ela realmente gostava dela.
O elevador chegou ambas entraram nele, Isis apertou o botão do térreo e a idosa o do décimo sexto.
O elevador parou, um menino entrou.
─ Bom dia Sra. Murfin. Olá moça.
 “Moça?! Eu o conheço desde muito pequeno e ele me chamou de moça? Ele só pode estar brincando.”
─ Olá piralho, não me conhece não? HAHAHA!
O menino olhou-a como se pedisse desculpas e acessou, indicando com a cabeça que realmente não a conhecia.
─ Estranho, não a conheço, e há anos os apartamento desse prédio não são vendidos. – Disse o menino.
A mulher ficou paralisada, seu peito doía, seu coração estava sendo espremido, seu estômago tinha dado lugar a um enorme vazio, suas pernas estavam fracas. Ela não podia ser esquecida, não por eles, isso a machucava, essa idéia a assustava.
O elevador parou novamente, todos saíram. As pessoas passavam por ela pelo hall, ela sorria, cumprimentava na esperança de alguém reconhecê-la, mas a cada pessoa com quem falava, a certeza de ter sido esquecida solidificava-se.
─ Olá, como está seu dia Isis? – Isis olhou na direção da voz. Deparou-se com um homem alto, belo, cabelo espessa castanho acaju, cuidadosamente penteados para trás; uma mecha caia sob seus olhos, que lhe era estranhamente familiar.
─ Difícil. – Ela lhe ofereceu um sorriso educado. Continuou a andar, e o homem a seguia.
Após saírem do prédio, ele lhe perguntou:
─ Há quanto tempo você tem medo de ser esquecida?
Ela parou abruptamente. Um sorriso brincou nos lábios do homem. Isis estava aturdida, como ele sabia tal coisa? Ela trabalhara duramente anos para esconder isso das pessoas e ela sabia que o conseguira fazer muito bem. Depois parou e pensou em uma resposta; não encontrou. Achava que talvez fosse porque não fazia sentido lembrar ou, quem sabe, porque isso não ajudaria de forma alguma. Isso era realmente importante?!
─ Deve doer ser a excluída das brincadeiras e esquecida na casa das amigas pelos pais. – O homem de cabelos castanhos voltou a falar instigado pela reação dela. – Mesmo que não queira seu destino é ficar solitária e ser esquecida. Não importa quantos livros escreva quantos livros seus as pessoas leiam, ele não a conhecem de verdade e você mesma diz que “a pessoas são lembradas pelo que são e não pelo que desejam ser”.
A ultima frase ressoou pela sua cabeça, ela sempre falava isso em entrevistas, a maioria de seus livros era sobre auto-afirmação e agora estava escrevendo sobre uma menina que enfrentava seus medos. Naquele momento isso chegava a ser irônico.
Já estavam na porta do café. Entraram. Jack não a cumprimentou como sempre, e nem lhe serviu um chocolate quente sem ela, ao menos, pedir, ele normalmente sabia o que Isis desejava. Ela queria chorar. Os olhos do acompanhante brilhavam de satisfação, ela não o olhou nem uma vez depois de saírem do condomínio.
Enquanto ela bebia o chocolate lentamente, flashes de sua infância e de sua adolescência corriam pela sua mente.
Meninas brincavam de pique - esconde enquanto ela de Barbie, sozinha. Trabalhos em grupos que ela só era chamada por tirar boas notas. No intervalo, ela com poucos alunos, primeiras amizades. Um professor que brincava de monarquia com seus alunos, ele o rei, os meninos, vassalos. As pobres jovens não sabia que eram dominados. Naquela situação Isis era a única que sabia o que estava acontecendo, ela devia ser a bruxa que seria queimada.
Ela levantou o olhar para o homem, o reconheceu... Não podia ser...
─ Você está certa cara Isis Audrey. – Um sorriso maquiavélico desenhou seus lábios, ele estava em êxtase.
─ Merda! – Sibilou ela, correndo até a porta que levava ao penhasco, uma cerca protegia de acidentes.
Ele a seguia lentamente, seus olhos estavam em brasa. O sol batia no rosto de Isis, ela pouco se importava, apenas queria fugir dele.
─ Você está morto, professor Gregory! Eu o vi no chão, atropelado! – Ela estava confusa, assustada. – Você queria fugir depois que descobriram seus abusos contra menores. A policia estava atrás de você... O atropelaram! Fui ao seu enterro. Todos foram.
─ Eu lembro... Ninguém desconfiava até você falar... Não lhe deram crédito, até você arranjar provas... Pff! – O professor dizia como se estivesse entediado, porém seus olhos negavam a que sua voz mostrava, ele estava adorando o desespero dela.
Ele ia se aproximando, e ela ia ficando cada vez mais perto do precipício.
─ Você era tão popular na escola, só você não via. Ai, ai... As meninas não gostavam de você, tão invejosas... Você brilhava por si só.
─ Você é louco! – Eles estavam próximos o suficiente para que se encostassem se um deles levantasse um braço. Ela gritava várias e várias vezes como se isso fosse afastá-lo.
─ Eu sou louco?! Você que por muito pouco não tem múltipla personalidade, e eu que sou o louco?! Só sabia muito bem como aproveitar a vida. Elas eram bonitas, saudáveis, fáceis de manipular... Todos eram, diga-se de passagem. Só você não... Em relação a sua múltipla personalidade, se não fossem seus livros você já estaria se apresentando com outro nome... Joana D’Arc. talvez? – Ele ria naturalmente com o sofrimento e dor que radiava dela.
Isis apertou os olhos tentando segurar as lágrimas, guardando o pouco de orgulho que ainda tinha, para que não escapasse por seus olhos.
Quando ela abriu os olhos estava tudo diferente, os raios de sol que atrapalhavam sua visão, agora eram delicados feixes de luz vindos da lua. Aquilo não era real, devia estar sonhando.
─ Acertou Srta. Audrey! Agora esta acordada, porém, a pouco, dormia. Não sabia que era sonâmbula, veio parar no abismo. Olha que eu só queria perturbar seu sonho... Lembra quando eu dizia que nunca iria te deixar em paz? – Gregory sorria amavelmente, porém suas feições estavam como no sonho, ameaçadoras, ele estava cada vez mais próximo dela.
Ela deu um passo, avançando. Ele colocou uma mão em seu peito e falou:
─ Já é tarde demais, mulher da minha vida. Seu destino está traçado. Você mesmo o traçou no dia em que recusou meu convite de sairmos.
Ela sentiu a mão do professor empurrando-a. Ele estava sério, apreciava o momento.
Isis sentia o vento em sua pele, sua camisola balançava. Ela caia, pousaria no mar.
A ultima coisa que viu foi seu professor dissolvendo-se no ar, risonho, satisfeito.
─ Eu te odeio! – Sussurrou ela. E caiu, num baque intenso no leito do oceano.

Desconheço a autoria do texto.
Caso saiba favor me informar pra eu dar os devidos créditos

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